Manaus está mais quente? Dados de satélite
2026-09-29 · por
movido a dados e café (às vezes dados sobre café), um líder de marketing e growth com conhecimento técnico pra executar e experiência pra liderar. começou como copywriter, jamais deixou de escrever, mas se especializou em liderar projetos criativos e de growth, de multinacionais e fintechs a SaaS B2B de nichos menores que uma cômoda. gostaria de poder fazer consultas sql à sua frágil memória e ter uma função recursiva rodando para lembrá-lo de beber mais água (sem alterar a quantidade de café).
Depois de um tempo sem voltar à Manaus, acabei chegando na época de maior calor. E o melhor jeito de explicar é que eu brincava que Manaus tinha apenas duas estações: verão e inferno.
Essa última visita se deu no inferno. Mas eu não lembrava de fazer um calor dantesco. Então veio a pergunta: será que Manaus está ficando mais quente? Ou eu que fiquei desacostumado com o calor?
Só os dados poderiam responder.
E eles me assustaram tanto que nasceu o projeto Manaus Odeia Árvores.
O início do projeto: por que Manaus não tem árvores?
Vendo fotos de várias décadas atrás, muito antes da Zona Franca de Manaus e do crescimento desordenado da cidade, eu ficava impressionado com as roupas usadas. Roupas pesadas, com mais de uma camada. Mas nas fotos ninguém parecia estar a ponto de desmaiar.
E a principal diferença de lá para cá era a quantidade de asfalto, concreto e prédios; ilhas de calor que substituíram áreas verdes entremeadas na cidade. Meu pai costumava contar da infância dele pulando no igarapé, entrando no mato e parecia um local muito distante de onde estou agora. Quando, na verdade, fica a menos de 5km daqui.
Nessas mesmas fotos antigas é possível ver também que as avenidas e ruas eram arborizadas. Hoje, um rápido passeio pelo Google Maps mostra a imensidão cinza que se tornou Manaus.
Esse foi meu ponto de partida: Manaus tem uma péssima relação com as árvores. Ah, a ironia de estar no coração da Amazônia, o “pulmão do mundo”, e sufocar aos poucos!
Os dados sobre o calor de Manaus e a vegetação (e talvez devêssemos falar sobre a soberania deles)
Eu queria achar correlação entre essas duas coisas: temperatura e vegetação. A ideia inicial era usar um recorte temporal longo, mas a qualidade e/ou a disponibilidade dos dados me limitaram a duas décadas e meia (2001-2025).
E meu primeiro achado foi, no mínimo estranho (pra não falar maluco): Manaus parecia esfriar a partir de 2020. Mesmo que os pesquisadores, as pessoas e a marca de suor na minha cadeira gritassem o contrário.
Então fui investigar.
Foi a partir desse momento (2020) que a passagem do satélite e, por consequência, a leitura da superfície foi antecipada em 1h. Costumava acontecer às 10:28AM e passou a acontecer às 9:19AM. E se você conhece Manaus, sabe da diferença absurda da violência do sol entre 9h e 10h.
E aqui fica meu ponto sobre a soberania, caso não seja óbvio: não produzir (ou não disponibilizar facilmente) dados faz com que a nossa produção de conhecimento seja, no melhor dos casos, imprecisa. E, no pior dos casos, cooptada; a serviço (ou à mercê) de outros países.
Para não ficar muito técnico, deixei ao final as notas sobre origem, processo e limpeza de dados. Mas o ponto é que: graças a uma decisão do governo americano (o satélite é da NASA), foi preciso modelar a temperatura a partir da mudança na passagem do satélite, o que acabou, possivelmente, eliminando extremos (tanto quentes, quanto frios).
O lugar mais quente de Manaus (e o mais frio) e por que Manaus odeia árvores
A limitação inicial dos dados disponíveis foi extremamente frustrante. Aqui estava eu ansioso por um estudo com 100 anos de dados sobre a cidade e, de repente, precisei me contentar com 25 anos.
Até eu encontrar uma zona experimental: o bairro Cidade Nova. A grande expansão do local começou exatamente no período inicial dos dados e está se consolidando no período final. Se você é da área de marketing, é como se Manaus tivesse feito um geo holdout: segurou a expansão numa área para permitir que, décadas depois, eu calculasse a incrementalidade da temperatura a partir da redução de áreas verdes. E como isso foi assustador.
A região perdeu 35% da vegetação no período e viu a temperatura subir 3x mais rápido que a média da cidade no mesmo período. São 2,9ºC a mais em apenas 25 anos.
A Cidade Nova está relativamente perto da Reserva Adolpho Ducke, uma área preservada que chega a ficar quase 9ºC mais fresco que Petrópolis, o bairro mais quente da cidade. E essa proximidade ajudou a calcular também o quão quente um local fica a cada quilômetro de distância de uma área verde: quase +0,4ºC. A partir do 6º quilômetro, atinge um platô, que pode ser em razão de Manaus ter uma área urbana relativamente pequena e ainda cercada por floresta na zona rural. Ou porque existe um limite para o quanto uma floresta pode ajudar.
Em resumo, Manaus vai ficar inabitável
Parques sem árvores (sim, impressionante!), parques com árvores que não produzem sombra (de novo, impressionante!) e queimadas constantes em períodos de seca tanto no perímetro urbano quanto na “área metropolitana”.
Talvez um bom exemplo de como a administração pública (não) pensa na crise climática: após cortar várias árvores de uma avenida, a prefeitura respondeu que plantaria em outro local muito mais mudas. Como se árvore fosse um saldo bancário: tirei dessa conta, mas coloquei naquela.
Em uma década, a previsão é que durante 2/3 do ano Manaus sofra com calor extremo. E isso tem impacto tanto na saúde quanto na economia. Na economia, claro, porque a energia fica mais cara, assim como vários produtos, seja porque a seca impede a chegada de barcos carregados ou aumento de custos ou porque produtores locais não conseguem produzir. Mas a saúde também cobra um preço alto: os riscos cardiovasculares aumentam, principalmente para crianças e idosos, e o corpo não consegue descansar no final do dia devido ao calor.
Então Manaus vai ficar inabitável. Mais para alguns do que para outros.
Afinal, se você pode colocar ar-condicionado na casa inteira e utilizar o dia inteiro, o calor não é um problema para você. Se você tem carro com ar-condicionado e não depende das calçadas ou do transporte público para se locomover, o calor não é um problema para você. Se o custo da energia mais cara do Brasil fica ainda mais alto, mas isso representa uma fração da sua renda, o calor não é um problema para você.
A catástrofe climática que desaba sobre Manaus é tão ou mais social quanto é ambiental.
O fim será instagramável
Quando iniciei esse projeto, eu só queria responder:
- Manaus está ficando mais quente segundo os dados?
- Se sim, quanto?
Daí saíram dados alarmantes, um site (Manaus Odeia Árvores) desesperador e um texto que não sei muito bem como terminar. Porque, afinal, eu só queria recriar os passos do projeto para registrar o processo.
Mas lembrar do futuro que nos espera transformou esse texto em um longo epitáfio pra Manaus.
Que pelo menos o nosso lindo pôr do sol, atrás do rio completamente seco e do verde esfumaçado, continue rendendo curtidas armazenadas em algum data center.
Agradecimento ao meu amigo Rick Stanley por sugestões, melhorias e por se revoltar junto comigo com a falta de árvores em Manaus.
Para os nerds.
Mais sobre os dados
Fontes
- Temperatura de superfície (LST): MODIS Terra, produto MOD11A2, resolução de 1 km, acessado pelo Google Earth Engine. Cobre janeiro de 2001 a dezembro de 2025 e é granular o bastante para comparar bairros e áreas com vegetação. O produto vem em composições de 8 dias, que agreguei em médias mensais.
- Vegetação (NDVI): MODIS Terra, produto MOD13Q1, resolução de 250 m. Agreguei os pixels em células de 1 km, a mesma grade da temperatura, o que permite cruzar as duas variáveis por identificador de célula. O recorte tem cerca de 50 × 39 km e 2.040 células, com 300 meses por variável.
- Máscara de água: o Rio Negro, que envolve a cidade, tem NDVI negativo e aparecia como área degradada. Mascarei a água com a camada de ocorrência de água do JRC (
JRC/GSW1_4). O limiar (50%) veio da distribuição real dos valores, que é bimodal, e não de um chute. - Fontes auxiliares: o Open-Meteo Archive (temperatura do ar a 2 m, reanálise com resolução nativa de cerca de 31 km) e os pontos de referência de um estudo da UEA (2002-2012). O primeiro alimentou a correção descrita abaixo. O segundo serviu de validação: os bairros que o estudo aponta como mais quentes (Petrópolis, Aleixo, Japiim, Cidade Nova) e como mais frios (Reserva Ducke, Ponta Negra) foram verificados também nos meus dados.
Extraí tudo com scripts simples em Python e as tabelas ficaram em Parquet, um arquivo por ano, para os cruzamentos.
Limpeza
Cada critério foi aplicado sobre o dado bruto e documentado com a quantidade de valores afetados. Nada foi apagado: o valor inválido virou nulo.
- Qualidade do sensor: aceitei os pixels com flags 0 e 1 e rejeitei só os "não produzidos". A máscara mais estrita zerava 100% da leitura noturna, porque o MOD11A2 quase nunca marca a LST noturna com a flag mais rígida.
- Faixa plausível: 58 leituras diurnas e 30 noturnas fora da faixa (a mais absurda, −7,5 °C) viraram nulo. Prováveis nuvens em meses muito nublados.
- Inversão térmica impossível: 82 células-mês em que a noite estava mais de 5 °C mais quente que o dia, o que não acontece numa cidade equatorial. Foi sempre a leitura diurna que estava errada.
- Anomalia estatística: valores a mais de 4 desvios-padrão da média da própria célula no mesmo mês do calendário. Foram 430 valores diurnos e 6 noturnos.
O caso mais instrutivo foi junho de 2001. Apareceu um pico de calor em cerca de 30 células vizinhas e a explicação parecia óbvia, um evento real. Não era. Junho de 2001 teve recorde de frio em Manaus e nenhuma leitura noturna válida em toda a grade: o "pico" vinha dos poucos pixels diurnos que sobraram, contaminados por nuvem. Só percebi isso depois de checar o mês em fonte externa.
Deriva orbital e correção
O Terra não recebe manobra de correção de órbita desde 2020, e o horário local da passagem foi se antecipando. Confirmei com a banda Day_view_time do próprio produto: a passagem diurna ficou estável em torno de 10h28 entre 2001 e 2020 (desvio-padrão de 7 minutos) e caiu para 9h19 em 2025. A superfície de manhã ainda está esquentando, então uma leitura uma hora mais cedo sai artificialmente mais fria.
A primeira tentativa foi uma regressão linear da LST contra o horário de passagem, para estimar °C por hora. Não funcionou: o resultado foi −0,54 °C/h. No período de referência o horário varia pouco demais para a regressão separar o efeito do horário.
A saída foi usar uma curva horária real. Baixei do Open-Meteo a temperatura do ar hora a hora (2001-2020) para um ponto no centro de Manaus e calculei a média por hora do dia. Ela mostra que a subida das 9h às 10h (+0,90 °C) é bem mais íngreme que a das 14h às 15h (−0,19 °C). Só que essa curva é do ar, e o que preciso corrigir é a superfície. Para converter, calibrei um fator de amplificação k:
k = (LST_dia − LST_noite) / (Ar_dia − Ar_noite)
Uso a diferença entre as duas passagens que a própria LST já tem (~10h28 e ~22h31, média 2001-2020). A superfície varia 5,66 °C entre elas e o ar, cerca de 2,4 °C, o que dá k = 2,34. A correção mensal é:
correção = k × (Ar na hora de referência − Ar na hora real de passagem)
Mantive o dado bruto e gravei o corrigido em colunas separadas. O efeito foi grande: 2025, que saía como outlier extremo (−2,9 desvios-padrão), passa a +1,4, dentro do normal. Os anos de seca real (2023 e 2024) ficam ainda mais quentes depois da correção, porque a mudança no horário da leitura estava distorcendo o resultado.
Limitações
- O
ké um número único, calibrado com dois horários e um ponto de ar, e vale igual para toda a cidade. Ele sub-corrige os valores extremos: um pixel muito quente aquece mais rápido de manhã do que a média usada na calibração. Por isso o site não mostra "temperatura máxima registrada". - O satélite passa duas vezes por dia e nunca vê o pico da tarde (14h a 15h). O que o mapa mostra é a temperatura da superfície no horário da passagem, não a máxima do dia e não a temperatura do ar.
- Os dados de ar são de reanálise em células de ~31 km, mais amplas que a cidade inteira.
- Nuvem deixa buracos, porque impede a leitura. Tratei como nulos.
